terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Papa Livros - O extraterrestre

     O vencedor do concurso escolar Mascote do Plano Regional de Leitura, o aluno André Barbosa Custódio, escreveu o seguinte texto sobre o Papa Livros, mascote do PRL.
     O André frequenta atualmente o 5.º ano na Escola Básica Integrada de Lagoa e continua a gostar de ler e escrever.  

 Papa Livros – O extraterrestre – Parte 1
     Era uma vez um planeta distante perdido na imensidão do Universo. Este planeta chamava-se Analfabetus. Todos os seus habitantes tinham uma coisa em comum, apesar de reconhecerem que lhes fazia mesmo muita falta, não sabiam ler nem escrever. Sabiam ser solidários, sabiam cantar, sabiam contar anedotas como ninguém e levavam uma vida feliz e despreocupada.
No entanto, existia um dos seus habitantes que não se contentava em ser feliz, em rir disparatadamente com as piadas dos outros… queria mais da vida. Queria conhecer outros planetas, aprender os seus costumes e descobrir o que significavam os códigos secretos que já ouvira chamar de letras, palavras, frases e textos.
Chamava-se Papa Livros, porque comia livros. Mas agora estava farto disso… já não queria comer livros, preferia entretanto descobrir o que diziam aqueles símbolos estranhos todos alinhadinhos nas folhas.
Um certo dia, o Papa Livros lembrou-se de construir uma nave espacial, daquelas mais potentes do que o carro do Cristiano Ronalivros, um dos craques futebolísticos daquele planeta. Bem, não foi bem ele que construiu a nave, foi mais o seu pai do que ele.
A construção da enorme nave demorou uma semana, cerca de 3 horas de trabalho por dia mas, passada essa semana, chegaram finalmente ao seu objetivo: a construção da nave espacial.
O pai do Papa Livros não descobrira ainda o que queria o Papa Livros fazer com a nave e, depois de construída, perguntou então ao pequeno extraterrestre:
- Afinal filho, para que queres então a nave espacial?
– Para viajar para um planeta chamado… ahm… Terra, aparentemente o único planeta com vida. – respondeu o Papa Livros, consultando o mapa do sistema solar mais próximo dali.
O pai já ia responder quando já o Papa Livros estava a dirigir-se para casa, para preparar as malas e depois, despedir-se dos pais.
Preparou-as e, depois de despedir-se dos pais, foi para a sua nave.
– Descolagem em 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… DESCOLAR! – disse o comunicador da nave.
E lá foi o Papa-Livros, a uma velocidade sobrenatural.
A viagem demorou 24 horas, visto que o planeta se encontrava longe da Terra.
O Papa Livros tinha fome e disse ‘‘fish’’ para um recetor de ordens que a nave possuía, que fazia tudo o que lhe mandassem.
A máquina ficou baralhada e soltou guinchos dizendo em voz robótica:
– Ficher! Ficher! Ficher! Ficher! Ficher! – Guinchou ela, indo a uma velocidade tremenda.
O som da nave a aterrar ecoou em todas as salas e ‘’blocos’’ da escola, até mesmo no ginásio, mas ninguém deu importância àquele som.
O Papa Livros sabia que não estava num restaurante de peixe, por isso, pôs-se a explorar aquilo.
Foi a todos os ‘’blocos’’ (A, B, C, D e E) e, por coincidência, todos os auxiliares que estavam em cada ‘’bloco’’ desmaiaram quando o viram.
Depois de por os auxiliares KO, dirigiu-se ao Pavilhão Central.
Os auxiliares do Bar e da Papelaria também desmaiaram e o pior para o Papa Livros aconteceu na biblioteca.
Ele entrou na biblioteca e, em vez de a auxiliar de lá desmaiar como todos os outros(as), pegou num livro que tinha à mão e atirou ao Papa Livros. Como se não bastasse, o livro acertou em cheio na cabeça do Papa Livros, fazendo-o andar a roda e desmaiar: virou-se o feitiço contra o feiticeiro (ele fez os auxiliares desmaiar, depois desmaiou ele).
Quando o Papa Livros acordou, estava rodeado de pessoas na biblioteca.
– Quem são vocês? – interrogou ele.
Todos ficaram espantados. Um extraterrestre a falar a língua portuguesa.
– Tu… tu… tu… tu falas? – disse a senhora Marivone, vice presidente do Conselho Executivo.
– Sim, falo. Porquê, algum problema? – disse o Papa Livros com ar desconfiado.
– Não, só acho estranho um ET falar. – respondeu a senhora Marivone.
Todas as pessoas ficaram sem saber o que fazer com o Papa Livros, por isso, chamaram o professor Eduíno, presidente do Conselho Executivo.
Papa Livros – O extraterrestre – Parte 2
Quando o professor Eduíno chegou à biblioteca, deparou-se com aquela criatura e, por incrível que pareça, a sua reação até foi boa.
– Eu acho que conheço-te de algum lado. – disse o presidente do Conselho Executivo, com uma voz doce e carinhosa.
– Lamento mas nunca vim a este planeta. Nunca nos vimos, mas o meu nome é Papa Livros. – respondeu.
– Papas o quê? Aqui na biblioteca não papamos livros, apenas os lemos. Se queres papar, papa no refeitório. – contrariou o professor Eduíno. A propósito, hoje a comida é batatas fritas com hamburger, vais gostar!
– Mas eu não tenho dinheiro para pagar a comida. – respondeu o Papa Livros.
– Não te preocupes que pagamos-te a comida para hoje. – declarou o professor Eduíno.
Dito isto, foram comprar a senha do Papa Livros para depois darem um passeio pela escola.
Depois de comprada a senha, o Papa Livros foi dar então o passeio com o professor Eduíno, onde contou de onde tinha vindo e os motivos que o levaram a fazer a longa viagem.
Estava na hora do intervalo para os professores e alunos e o André, aluno do 5ºG, vindo da sala E28, dirigia-se para a entrada da sala A5, quando viu o professor Eduíno a sair do Pavilhão Central acompanhado por uma pequena e estranha criatura. Olhou também para o Bar e para perto dele e reparou que as pessoas que lá se encontravam estavam boquiabertas.
Dirigiu-se então ao Papa Livros e disse-lhe:
– Eu acho que te conheço de algum lado.
– Pois, eu também disse o mesmo quando o vi. – acrescentou o professor Eduíno.
– Estranho. Por acaso não te chamas Papa Livros? – perguntou o André ao pequeno extraterrestre.
– Sim. Como sabes? – retorquiu o Papa Livros.
– Sei porque fui eu que te desenhei. – disse o André.
– Peço desculpa, mas não foste tu que me desenhaste! Foram os meus pais que me desenharam. – respondeu muito surpreso, o Papa Livros.
– Aí é que te enganas. Cada pensamento que os seres humanos têm, ultrapassa uma barreira dimensional ou seja, eu “criei-te” cá e tu nasceste lá, no planeta Analfabetus. Mas não te preocupes que não és meu filho, és filho do teu pai e da tua mãe. – disse o André com uma expressão sorridente. E digo-te mais, no futuro, serás alguém e até já começaste esse percurso. – finalizou com um ar misterioso.
– Como assim já comecei? – interrogou o Papa Livros curioso.
– Ah pois! Esqueci-me de te contar. És a mascote do Plano Regional de Leitura! – respondeu o André.
– E o que faço? Para que sirvo? – perguntou entusiasmado o Papa Livros.
– Serves para dar o exemplo aos meninos de Portugal que ler é muito importante. E para além disso apareces em capas de muitos livros, revistas e até na internet. – replicou o André.
– Internet? E o que é...
– Chega de perguntas. Se queres saber o que é a internet, dá o bom exemplo e lê os livros. – interrompeu o André.
– Mas, André, eu não sei ler nem escrever. – disse ele, com um ar triste.
– Não te preocupes, Papa Livros. Eu vou autorizar a tua matrícula aqui nesta escola. – interveio o professor Eduíno, tentando animar o Papa Livros.
E assim foi. O professor Eduíno matriculou o Papa Livros na escola.
O Papa Livros estava ansioso por começar a aprender a ler, escrever e muito mais. Mas o mais engraçado era que o Papa Livros conseguia aprender uma matéria por dia, fosse ela qual fosse, sem ter que estudá-la para a memorizar. Ele tinha um “chip” na sua memória e o que lá entrava já não mais saía, excepto o que o Papa Livros mandasse esquecer.
Assim, não foi preciso mais do que uma semana para o Papa Livros aprender a ler e a escrever.
Certo dia, estava o Papa Livros a sair das aulas, rumo à sua nova casa, a biblioteca, quando, vindos de helicópteros, apareceram uns quantos jornalistas. Esses jornalistas começaram a tirar fotos ao Papa Livros enquanto diziam que ele iria aparecer em todos os livros recomendados pelo Plano Regional de Leitura. Mas não pensem que foi fácil! Primeiro o Papa Livros teve de ler esses livros todos para depois dizer se achava ou não que devia aparecer lá (ele só aparecia se o livro fosse interessante para as crianças).
E foi assim que o Papa Livros deu a sua primeira entrevista à imprensa, numa bonita cerimónia que se realizou na biblioteca da EB 2,3 Padre João José do Amaral. Agora devem se estar a perguntar se o André foi convidado para assistir à entrevista. Claro que foi, por ser criador do Papa Livros e por ser também um menino que adora ler e escrever.
Tornaram-se grandes amigos e não vivem um sem o outro. O André diz que ler é uma maneira de viajarmos, sem ter de pagar bilhete, enquanto o Papa Livros acha que é a melhor forma de “papar” os livros sem os destruir.
     Ler é bom! E sem leitura, não teriam conhecido esta aventura.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Encontro

Volta o livro nas mãos. Os olhos não se focam nem em mim, que lho dei, nem na capa ou conteúdo. Dir-se-ia que remexe aquele objeto estranho a que terá que dar um destino qualquer mas que não o reconhece; não existe intimidade para ele no seu mundo.
Pergunto-lhe se já o leu. Responde que não sabe por onde começar, são muitas letras; tem que estudar para os testes, tem aula de natação, se não pode substituir aquele trabalho por um relatório sobre a aula ou sobre um programa de televisão.
- Pois… digo, e lanço o meu  trunfo – mas é que este livro foi escrito de propósito para um rapaz como tu.
- Como eu?!...
Aproveito a sua surpresa, e apoio-me na indecisão para propor-lhe:
- Fazemos assim: não procures preencher a ficha sobre o livro. Lês, apenas. Ou pedes a alguém que to leia. Depois vens e dizes-me o que achaste  da história… o que ela tem de parecido com a tua.
Fica interdito. Diz que não sabia que as histórias podiam ser escritas para alguém em especial ou para muitos; achava que os livros eram guardiões de palavras muito complicadas e que nem toda a gente sabia manuseá-los.
Digo-lhe que os livros, como tantas outras coisas pela mão do homem, não passam de mensagens. Porém só acontecem quando alguém as reconhece. Como poderemos reconhecê-las se não nos aproximarmos o suficiente?
Passam-se alguns dias. Tempo em que, por um acordo tácito, para que se possa operar a magia, não contabilizamos as horas inóspitas ou a avaliação expectante. Eu estou crente no poder da narrativa; ele, estará preso pela novidade da experiência?
Quando voltamos a encontrar-nos traz uma expressão triunfante e sonhadora: não preciso de pedir-lhe para me contar tudo: a sua vida e as aventuras do herói são uma coisa apenas. E já não há palavras, apenas uma grande saga em que participa.
Fala. E enquanto fala, os olhos não se focam em mim, nem na capa ou conteúdo. Estão para lá do presente, para lá do receio, num mundo que finalmente aceita como seu.
Muitas vezes me tenho perguntado qual será o real objetivo de um Plano Regional de Leitura para rapazes como este, tantos são os que povoam a minha vida.
Que aprendam a ler mais e melhor, que se tornem críticos do texto escrito, à sua medida, que descubram o mundo através deste contato?
Sem dúvida, tudo isso, mas acima de tudo será uma conquista se houver um encontro: as suas palavras, aquelas que ainda não tomaram forma mas que navegam na mente à espera de serem experimentadas, com as palavras do livro; os seus receios, os seus júbilos, a sua vida ainda em metamorfose, com a vitalidade que transpira do livro; o conhecimento empírico e alimentado, com a sapiência subjacente às histórias do livro.
É este tipo de encontro que espero muito que aconteça, que é necessário acontecer para que a leitura não cristalize num mero episódio às portas da fortuna, para que ele ganhe o hábito e depois (muito melhor) o vício, a compulsividade de ler: falo deste género de encontro.

Madalena San-Bento

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O leitor: direitos e (talvez) deveres

De direitos se faz a história do nosso tempo. Não há quem não tenha direitos e muito menos quem não esteja seguramente consciente de que os tem e de que deles pode sempre usufruir. Os deveres é que. Mas aqui de livros se trata – de livros e de leitura. Direitos que a todos deveriam interessar, embora haja quem deles prescinda.
Havendo leitores, é necessário concluir que lhes assistem direitos. Assim o pensou Daniel Pennac, elencando uma lista de dez direitos que ao leitor dizem respeito (cf. Como um Romance, Ed. ASA, 1992, p. 155): o direito de não ler, o direito de saltar páginas, o direito de não acabar um livro, o direito de reler, o direito de ler não importa o quê, o direito de amar os “heróis” dos romances, o direito de ler não importa onde, o direito de saltar de livro em livro, o direito de ler em voz alta, o direito de não falar do que se leu. Se não tivermos em atenção o primeiro direito (que é óbvio, mas faz do leitor um não-leitor), todos os outros configuram uma salutar liberdade do leitor perante o livro – ler sem liberdade é, de facto, algo que só pode reverter em desfavor da leitura; ler por obrigação e de forma necessariamente “certinha” é o caminho seguro para o leitor (sobretudo o leitor jovem e iniciante) se afastar da leitura. Pelo contrário, ler de acordo com o seu “estilo” próprio, fazer do livro um amigo com quem se está à vontade, é via para um desenvolvimento do prazer de ler. Os direitos do leitor não se esgotam – como diz, aliás, Pennac – nos propostos. De facto, apetece acrescentar alguns: o direito de ler o livro todo, o direito de acabar o livro, o direito de falar do que se leu, o direito de sonhar com o que se leu, o direito de aprender com o que se leu, enfim, seria a lista interminável.
E quanto a deveres, essa palavra que tão arredada anda do nosso vocabulário? Quando se trata, em particular, de uma actividade que deve, antes de tudo, proporcionar prazer (pois, se o não proporcionar, vã será a leitura), falar de deveres torna-se, provavelmente, pouco oportuno. Com efeito, dever opõe-se, as mais das vezes, a liberdade – e a liberdade tem de presidir ao ato de ler, a fim de que este seja profícuo. No entanto, ousamos aqui aventar alguns deveres do leitor. Em primeiro lugar, o respeito pelo livro – pelo objeto que é e que merece ser preservado, nem que seja por princípio ecológico. Não respeitar a integridade do livro é uma ação que revela, no mínimo, falta de civismo. Outro dever do leitor é não desvirtuar as palavras de quem escreveu – dever, como o primeiro, alicerçado no respeito. O terceiro dever será o de ser crítico relativamente ao que se lê, também manifestação de civismo.
Não querendo maçar o leitor com uma elencando de deveres que lhe poderiam ser desagradáveis, por aqui nos ficamos, com uma sugestão: leiam, usufruam dos seus direitos. E não esqueçam os seus deveres.
Paula de Sousa Lima

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Projeto de promoção da leitura nas escolas do 1.º ciclo do Faial

O projeto artístico de promoção do livro e da leitura “Abraços de Palavras", inserido nas atividades do Plano Regional de Leitura, e dinamizado por Rita Braga, volta às escolas do 1.º ciclo do Faial durante os meses de outubro e novembro com o ateliê “Os Vizinhos”, num total de 32 sessões. 

Com este ateliê pretende-se surpreender e maravilhar o público escolar com uma história indiscutivelmente emotiva, jogar com os seus pensamentos, desafiando a sua curiosidade e incentivá-lo a dialogar, a partilhar afetos e a descobrir o mundo.

No ateliê “Os Vizinhos” os alunos vão descobrir um livro com muitas histórias dentro, histórias simples e bem-humoradas, de encontros e desencontros, localizadas sempre em quintais. Histórias que retratam a vida de um grupo de vizinhos ao longo dos doze meses do ano. Histórias repletas de canteiros, de árvores de fruto, de hortas, de estendais e de outras coisas mais. Histórias onde habita um gato misterioso e destemido sempre à procura do dono e da sombra que mais lhe convém.

No ateliê “Os Vizinhos” os alunos vão escutar e observar com muita atenção, reparar em certos detalhes, jogar com as nossas ideias, colocar perguntas e procurar respostas, analisar comportamentos, explorar expressões faciais, conhecer os outros e eles mesmos, promover a consciência ecológica e incentivar o prazer da criação artística. Os alunos vão imaginar e construir, em grupo, histórias situadas em quintais e representadas através de maquetes. Histórias cujos cenários e personagens serão feitas através da arte de dobrar papel (Origami) e através de outros materiais. Histórias que celebram o poder da imaginação e que serão alvo de exposição nas escolas participantes.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Eu, consumidor omnívoro de livros

O escritor e professor Victor Rui Dores, membro da Comissão de Honra do Plano Regional de Leitura e com uma obra na lista de livros propostos - Crónicas Insulares -, justifica a sua paixão pelos livros na crónica que aqui se publica.

Eu, consumidor omnívoro de livros
O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”  
Padre António Vieira 
           
Ler é aminha paixão e é a minha profissão. E é a minha forma de perseguir caminhos de felicidade e de sonho, eu que sou leitor compulsivo e completamente viciado em livros. E é por isso que não fumo – esta foi a minha mensagem para o Plano Regional de Leitura.
Um destes dias perguntava-me um aluno meu se estaríamos a assistir ao fim do livro. Respondi-lhe que não, acrescentando que um suporte de comunicação não substitui outro. E dei-lhe exemplos: a fotografia não acabou com a pintura; o cinema não acabou com o teatro; a televisão não acabou com a sétima arte. Nada irá destronar o livro – porque não é contra as tecnologias digitais que o livro deve esgrimir – ele terá que se impor como objeto sui generis, até agora insubstituível, não só na esfera de transmissão de conhecimentos, mas, sobretudo, na fruição estética, na preservação da identidade linguística e no aprofundamento do eu.
Quem lê mais escreve melhor. E não é com SMS que se aprofunda o eu…
Não, nada poderá substituir o prazer de manusear os livros, de os sublinhar, riscar, dobrar, amarrotar as suas páginas e nelas fazer anotações… É por isso que ler é, para mim, uma necessidade orgânica. Ou seja, a minha relação com os livros é física e intelectual. Gosto do cheiro do papel, do lustro ou do mate das capas, sobretudo gosto do cheiro da tinta… (Confesso: adoro snifar os livros, e, nesta matéria, o meu irmão José Elmiro é muito mais viciado do que eu). Depois há esse dado inapelável: podemos ler os livros sentados, deitados, de bruços ou de cócoras, prazeres que as novas tecnologias da informação e da comunicação manifestamente não nos dão…
Leio vertiginosamente. Aliás, só conheço dois leitores mais quilométricos do que eu – o  Onésimo Teotónio Almeida (na América) e o Manuel Jorge Lobão (na ilha Graciosa).
Para mim, a felicidade está em grande parte ligada aos livros que têm sido os meus amigos silenciosos, invisíveis e irresistíveis. Neles não paro de colher conhecimento, cultura, informação e descoberta, eu que pertenço a uma geração que não teve o amplo poder de escolha em matéria de leitura, de que hoje os mais novos beneficiam. Durante os meus verdes anos a produção de livros não era abundante nem particularmente atraente do ponto de vista gráfico. Era o tempo dos compêndios, das Selectas Literárias e dos manuais “aprovados oficialmente” e patrioticamente visados pela censura do Estado Novo…
Só comecei a gostar verdadeiramente de literatura quando me apercebi de que ela era inseparável da vida. Comecei a ler livros que me ensinaram a conhecer o mundo, mas mais importante do que isso, ensinaram-me a conhecer a mim próprio.
Alguns livros mudaram a minha vida: Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, e Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, para dar apenas dois exemplos. De resto Camões, Garrett, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, bem como Dickens, Stendhal, Dostoiewski, Flaubert, Balzac, Melville, Steinbeck, Poe, Faulkner, Hemingway, entre muitos outros, são os meus mestres de cabeceira e o pão de que me alimento no dia a dia…
Aliás o mundo, tal como o conhecemos, tem sido feito pelos livros. Da Bíblia, do Corão ao Capital e a Freud; da Ilíada e da Odisseia a Voltaire e a Victor Hugo, de Hegel a Proust e aos livros escolares, os homens (ainda) vivem de ideias transportadas por livros, que nem sempre leram, mas dos quais são filhos.
A propósito, e em tempo de aparente pujança editorial, convirá fazer aqui uma destrinça entre leitores e compradores de livros. O leitor lê efetivamente o livro que compra ou toma de empréstimo; o comprador de livros limita-se a colocá-los na estante (quase sempre para fins de ornamento) com a intenção de os vir a ler um dia…
Há que separar o trigo do joio, numa altura em que se confunde cultura com diversão, havendo, por conseguinte, uma completa submissão dos valores culturais aos valores do mercado. É que há por aí muita prostituição livresca encapotada em técnicas de marketing… Hoje o bom escritor parece não ser aquele em cujas obras se vislumbra qualidade literária e estética; nos tempos que correm o bom escritor é aquele que pertence ao jet set “literário” lisboeta, com especial predominância para os pivots televisivos…
Há que incutir, o mais cedo possível nos mais novos, o gosto pela leitura, a fruição estética das palavras e isso é uma tarefa que cabe a todos nós. Estimular a imaginação dos nossos filhos implica leituras, implica que lhes contemos histórias. Sei de muitos casais que, para não terem este trabalho, limitam-se a adormecer os seus descendentes através de filmes, impedindo, deste modo, que se estabeleça a respiração e a componente afetiva que deve existir na mensagem emissor-recetor.
Não há motores de busca, nem inovações tecnológicas, nem ciberespaços, nem recursos digitais capazes de substituir o livro. Este continuará a ser o que sempre foi: um apelo à nossa inteligência, à nossa sensibilidade, à nossa imaginação, ao nosso espírito crítico e ao nosso desejo de aventura.
Os iluministas internéticos jamais acabarão com a República das Letras.
Viva o livro!

                                                                                              Victor Rui Dores

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Plano Regional de Leitura

O Plano Regional de Leitura assume-se como um fator de desenvolvimento individual, de progresso coletivo e de requalificação da relação entre os indivíduos e destes com a sociedade. Posiciona-se positivamente em relação à prática social da leitura, no seu sentido mais pleno, encarando-a como um instrumento de cidadania. Para isso, o Plano Regional de Leitura elege como finalidades, não só o aumento dos níveis de literacia, de alfabetização funcional e de compreensão vertical da informação escrita, mas também o estímulo das práticas de leitura entre aqueles que, sabendo ler, não o fazem. 

O Plano Regional de Leitura pretende transformar-se num instrumento de referência em que se articulam compromissos, iniciativas e ações para a construção de uma sociedade leitora, progressivamente mais competente. O conceito de leitura que preside a este Plano não se resume à capacidade de descodificação e compreensão de textos escritos, mas aponta para a possibilidade de compreensão e utilização de uma tipologia variada de textos, que seja o suporte do conhecimento e da participação ativa na sociedade.

Estes princípios contextualizam e justificam um Plano Regional de Leitura que aposta igualmente na leitura e no desenvolvimento da literacia em contextos de educação formal, na aprendizagem intergeracional e no conceito de literacia da família, reconhecendo que há diferentes práticas de promoção da literacia, enraizadas em diferentes processos culturais, circunstâncias pessoais variadas e estruturas coletivas diversificadas.

O Plano Regional de Leitura constitui um instrumento autónomo que, embora baseado nos mesmos princípios subjacentes ao Plano Nacional de Leitura, reúne ações e estratégias de valorização da leitura e do livro especificamente adequadas às características e necessidades da população açoriana e do sistema educativo regional.

O Plano Regional de Leitura foi publicado em anexo à Resolução do Conselho do Governo n.º 82/2011 de 6 de junho de 2011.